Aumentar o volume da televisão, pedir constantemente para que as pessoas repitam o que disseram, sentir um zumbido persistente. Sinais muitas vezes ignorados ou atribuídos ao cansaço e ao estresse podem ser os primeiros indícios de um problema de saúde pública subestimado: a perda auditiva. Em uma conversa esclarecedora no podcast PVA Entrevista, conduzido por Juliana Garcia, a fonoaudióloga Dra. Yasmin Gasparotto, com 14 anos de experiência e proprietária da clínica FonoVita, detalhou as graves consequências de negligenciar a saúde dos ouvidos, que vão muito além da simples dificuldade de escutar.
🤫 Os Primeiros Sinais e a Longa Negação
Um dos maiores obstáculos para o tratamento da perda auditiva não é a falta de tecnologia, mas a barreira psicológica da negação. Segundo a Dra. Yasmin, os primeiros a perceberem o problema geralmente não são os próprios pacientes, mas as pessoas ao redor, que notam a TV em volume excessivo ou a necessidade de repetir frases.
Essa percepção externa frequentemente esbarra em um longo processo de negação. O paciente reluta em admitir a dificuldade, criando um ciclo de frustração para si e para a família. A especialista alerta que essa fase pode ser perigosamente longa.
"Tem estudos que falam que o processo de negação é em média de dois a três anos para a pessoa dar aquele start e falar assim: 'preciso usar [o aparelho]'."
🧠 O Cérebro em Risco: Declínio Cognitivo e Alzheimer
A consequência mais alarmante da perda auditiva não tratada é o seu impacto direto no cérebro. A audição é uma das principais portas de entrada de estímulos para a atividade cerebral. Quando essa via é comprometida, o cérebro deixa de receber informações vitais, iniciando um processo de declínio.
"O cérebro tá ali. Ele precisa receber informação. [...] Se ele não tá de aparelho, o cérebro começa a meio que perder [habilidades]."
A Dra. Yasmin foi enfática ao correlacionar a falta de reabilitação auditiva com doenças neurodegenerativas. Estudos científicos, segundo ela, já estabeleceram uma ligação clara: a privação sensorial acelera o declínio cognitivo e pode antecipar o surgimento de demências.
"Já tem estudos científicos que comprovam que a pessoa que tem pré-disponibilidade a ter Alzheimer, se ela tem uma perda de audição e ela não trata essa perda de audição, é um fator também para que ela tenha o Alzheimer mais rápido."
😔 O Peso do Isolamento Social
Paralelamente ao declínio cognitivo, a perda auditiva impõe um pesado fardo social e emocional. A dificuldade de acompanhar conversas, especialmente em ambientes ruidosos como festas e reuniões de família, gera constrangimento e frustração. Para evitar o que percebem como "passar vergonha", muitos optam pelo caminho mais fácil, porém mais devastador: o isolamento.
"A pessoa prefere se isolar. Ela fala: 'Ah, então prefiro não ir do que eu ir lá passar vergonha'."
Juliana Garcia complementou, ressaltando o efeito dominó dessa decisão: "E aí o emocional entra num declínio. Que prejudica muito essa parte cognitiva, que já vai cair em déficit por conta da questão da perda auditiva." O isolamento agrava a depressão e a ansiedade, que por sua vez aceleram ainda mais a deterioração cognitiva, criando um ciclo vicioso de perdas.
🔔 Zumbido: O Alerta que Não Pode Ser Ignorado
Durante a entrevista, uma enquete com os espectadores revelou que a maior dúvida do público, com 78% dos votos, era sobre o zumbido. A Dra. Yasmin esclareceu que o zumbido não é uma doença, mas sim um sintoma, um "sinal de alerta de que tem alguma coisa que não tá funcionando bem".
As causas são multifatoriais, podendo envolver desde questões metabólicas (como excesso de açúcar), estresse e bruxismo, até a própria perda auditiva. A boa notícia é que, em muitos casos, o tratamento é eficaz. Quando o zumbido está associado à perda de audição, a reabilitação com aparelhos auditivos pode ser a solução.
"Quando a gente coloca o aparelho que reabilita aquela audição, o zumbido vai embora."
👶 Crianças e Jovens: Uma Preocupação Crescente
A saúde auditiva não é uma preocupação exclusiva dos idosos. A Dra. Yasmin alertou para o impacto do uso excessivo e em alto volume de fones de ouvido, especialmente entre os jovens, que pode levar à perda auditiva precoce e ao zumbido. Nas crianças, o problema pode ser ainda mais sutil e com consequências drásticas para o desenvolvimento.
Uma simples obstrução por cera ou uma alteração no Processamento Auditivo Central (quando o cérebro não interpreta bem os sons, mesmo que o ouvido os capte) pode ser confundida com desatenção, TDAH ou até autismo, atrasando o diagnóstico e a intervenção correta.
"Como que a gente aprende? Ouvindo. Então se a criança não escuta, ela não aprende. [...] Já teve casos em que a gente teve paciente que diz 'ela tá com autismo'. Não fala. A criança tinha perda de audição."
💡 Tecnologia a Favor da Audição: Aparelhos e Implantes
Felizmente, a tecnologia oferece soluções cada vez mais sofisticadas e discretas. Os modernos aparelhos auditivos, segundo a especialista, são pequenos, alguns praticamente invisíveis, e equipados com inteligência artificial que se adapta a diferentes ambientes, reduzindo ruídos e focando na fala. Com conectividade Bluetooth, permitem atender ligações e ouvir música diretamente. Os preços variam de R$ 3.500 a R$ 17.500 por unidade, dependendo da tecnologia.
Para casos de perda auditiva profunda, onde os aparelhos convencionais não são suficientes, existe o implante coclear. Trata-se de um procedimento cirúrgico que estimula diretamente o nervo auditivo. A Dra. Yasmin ressaltou a urgência da intervenção precoce em crianças, preferencialmente até os 4 anos, para garantir o desenvolvimento da fala e da linguagem.
A mensagem final da entrevista é um chamado à ação: a perda auditiva é uma condição séria com impactos profundos, mas tratável. Superar a negação e buscar ajuda profissional é o primeiro e mais crucial passo para reconectar-se com o mundo dos sons, proteger a saúde do cérebro e resgatar a qualidade de vida.
Assista abaixo ao episódio completo do podcast PVA Entrevista com a dra. Yasmin Gasparotto.

Comentários: