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Segunda-feira, 24 de Agosto de 2026

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"Escuta, mas não entende?": Como a Tecnologia do Implante Coclear Revoluciona a Reabilitação Auditiva

Especialistas discutem o impacto do diagnóstico precoce na infância, os avanços em conectividade e a longa caminhada pós-cirurgia para devolver a qualidade de vida a pessoas com perda de audição.

Juliana Garcia, Aline Oliveira, Yasmin Gasparotto e Vinicius Cazarotto no estúdio do PVA Entrevista. Foto: Garcia Neto
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No Mato Grosso, onde grandes distâncias geográficas costumam desafiar o acesso à saúde especializada, a cidade de Primavera do Leste consolida-se como um polo de soluções médicas para a perda auditiva. Em entrevista especial conduzida no podcast PVA Entrevista, um trio de especialistas — o otorrinolaringologista Dr. Vinícius Cazarotto, a fonoaudióloga Yasmin Gasparotto e a fonoaudióloga de suporte clínico da fabricante MED-EL do Brasill, Aline Oliveira — debateu as inovações que estão mudando a vida de pacientes na região. O tema central abordou a complexa transição entre "apenas escutar" e verdadeiramente "compreender" os sons ao redor.


🗣️ A Diferença entre Escutar e Compreender

Para muitas pessoas que sofrem de perda auditiva, a maior frustração reside na incapacidade de decifrar as palavras, mesmo quando conseguem detectar a presença de ruídos. A fonoaudióloga Yasmin Gasparotto explica que, em consultório, exames como a audiometria e testes específicos de fala são vitais para rastrear essa falha. "O paciente responde pelo tom, mas pode ser que ele não esteja entendendo". Segundo ela, há situações em que o aparelho auditivo convencional passa a captar apenas barulho de fundo, sem que o indivíduo consiga compreender as conversas, especialmente em ambientes barulhentos.

É nesse ponto de esgotamento das soluções tradicionais que o implante coclear surge como alternativa. Conforme define o Dr. Vinícius Cazarotto, o implante "é um procedimento cirúrgico, um procedimento invasivo" indicado para perdas severas ou profundas — sejam crianças que nasceram sem escutar ou pacientes que perderam a audição bilateralmente após adquirirem a linguagem — quando o aparelho convencional já não oferece benefícios. Ele o descreve como o "último recurso" para restaurar a audição desses pacientes.

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👶 Teste da Orelhinha: O Ponto de Partida Indispensável

A identificação da perda auditiva deve começar nos primeiros dias de vida do bebê. O "teste da orelhinha" (triagem auditiva neonatal) é classificado pelo Dr. Vinícius como "o primeiro exame de triagem que a gente tem que fazer no recém-nascido pra gente tentar, nos casos que têm uma perda, já começar a intervir o quanto antes melhor". Trata-se de um procedimento simples, rápido e não invasivo, capaz de apontar alterações logo no início da vida.

Entre as causas mais comuns de surdez em recém-nascidos, o médico aponta malformações congênitas (como a ausência do nervo auditivo), fatores genéticos (pais com surdez), prematuridade, internação em UTI neonatal e o uso de antibióticos autotóxicos. Quando uma alteração é detectada, o caminho padrão envolve a estimulação inicial com o aparelho convencional para, em um segundo momento, avaliar a necessidade do implante.

Yasmin Gasparotto faz um alerta importante para a falsa segurança de alguns pais que acreditam que o bebê escuta normalmente apenas porque ele reage a sons muito altos, como uma porta batendo. "Se tem ali uma perda leve a moderada, o bebê vai escutar o barulho de uma porta batendo, vai escutar o barulho de uma panela, mas sons mais baixos não consegue identificar". Caso o bebê apresente alguma alteração no teste de triagem, ele é imediatamente encaminhado para exames de diagnóstico mais aprofundados, como o BERA (Potencial Evocado Auditivo do Tronco Encefálico).

🧠 Como Funciona o Implante Coclear na Prática

Diferente dos aparelhos auditivos convencionais, que apenas amplificam o volume do som, o implante coclear é "um dispositivo eletrônico que vai estimular diretamente o nervo auditivo", pulando a parte fisiológica do ouvido para levar os estímulos diretamente ao cérebro. Devido a esse mecanismo artificial, o cérebro precisa passar por um processo intensivo de reaprendizado.

O Dr. Vinícius pontua que o som "não é um som que vai sair tão limpinho e tão nítido como uma audição normal ou com um aparelho auditivo" de início. Por essa razão, alinhar as expectativas do paciente e dos familiares, por vezes com suporte psicológico, é um passo crucial antes de entrar no centro cirúrgico.

Há também muitos mitos sobre a parte externa do aparelho. Ao contrário do que a fantasia e o medo dos pacientes sugerem, o processador externo não fica parafusado no crânio; ele é fixado ao componente interno por meio de um ímã. "Tem a pele que separa o componente interno do externo", e o usuário retira a parte de fora normalmente para dormir ou tomar banho.

Para as crianças, existem acessórios práticos e lúdicos. Aline Oliveira, fonoaudióloga da MED-EL do Brasill, apresentou opções de personalização que vão de estampas coloridas (como oncinha e personagens) a cores que se camuflam com o próprio cabelo do paciente. Há também kits voltados a bebês (kit baby), com travas de segurança que prendem o dispositivo na roupa para evitar quedas acidentais.


⚙️ Engenharia Médica: Otoplan, Bluetooth e Conectividade

Aline Oliveira destaca que a fabricante MED-EL do Brasill atua no mercado de tecnologia implantável no Brasil há cerca de 25 anos. Entre os grandes diferenciais cirúrgicos modernos está o uso do Otoplan, um software avançado de planejamento. Através dele, o médico envia os exames de imagem e a equipe realiza um mapeamento milimétrico pré-cirúrgico: "a gente faz um planejamento todo pro paciente: qual o posicionamento correto, qual o tipo de eletrodo... para a cobertura completa da cóclea para o som ficar cada vez mais próximo do natural".

A evolução dos processadores também é notável. O modelo mais recente, o Sony 3, traz conectividade direta via Bluetooth, funcionando de maneira idêntica a um fone de ouvido convencional. Através de um aplicativo de celular, os usuários e pais podem trocar programas acústicos, monitorar o nível de bateria e até rastrear a localização exata do processador caso a criança o perca enquanto brinca.

Outra tecnologia transformadora para a vida acadêmica é o microfone remoto. Trata-se de um acessório que o professor pendura no pescoço na sala de aula para transmitir sua voz diretamente ao processador da criança, superando os desafios acústicos de ambientes ruidosos. O kit entregue ao paciente também inclui capas protetoras de água para uso seguro na praia ou piscina, além de baterias recarregáveis. Para locomoção, o implantado recebe uma carteirinha que serve como documento para desviar de portas detectoras de metais em bancos e aeroportos.


⏳ O Fator Tempo: A Janela de Oportunidade

O tempo é o fator mais crítico quando se trata de perda auditiva na infância. Para crianças com surdez severa ou profunda de nascença, o Dr. Vinícius adverte que existe uma janela terapêutica estreita: "a gente tem um tempo aí até quatro, no máximo cinco anos para você conseguir reabilitar essa audição, porque a criança adquire a linguagem nesse período". Passada essa fase, os ganhos com o implante caem drasticamente. Realizar a cirurgia entre um e dois anos de idade garante um desenvolvimento linguístico e cognitivo muito superior.

Infelizmente, a resistência dos pais em submeter crianças pequenas a procedimentos sob sedação — como o exame BERA ou a própria cirurgia — ainda é um obstáculo recorrente. Yasmin Gasparotto relata casos dolorosos em que famílias postergaram a decisão até que fosse tarde demais para a estimulação do nervo. Diante da hesitação, Dr. Vinícius faz uma comparação precisa: "tempo faz toda a diferença na vida do paciente... não perder tempo em relação à audição, que é que nem o músculo: se você não estimula, ele atrofia".


❤️ O Desafio Humano: Paciência e Reabilitação

O sucesso do tratamento repousa em bases profundamente humanas e em uma longa jornada pós-cirúrgica. A cirurgia em si é apenas um passo que exige acompanhamento fonoaudiológico contínuo e terapias de reabilitação. A ativação do implante ocorre cerca de 30 dias após o procedimento, e as sessões de mapeamento e ajuste das cargas dos eletrodos são realizadas periodicamente (aos 3 meses, 6 meses e anualmente para adultos).

Aline e Yasmin ressaltam que os "pacientes fujões" — que deixam de comparecer aos retornos quando começam a ouvir bem — comprometem a evolução do próprio tratamento. Sem o balanceamento correto das cargas dos eletrodos, o nervo auditivo não recebe a estimulação ideal e o ganho auditivo fica limitado.

Além do rigor técnico, a empatia familiar e social é indispensável. Yasmin Gasparotto trouxe uma reflexão marcante compartilhada por um de seus pacientes: "o cego todo mundo tem pena, mas do surdo todo mundo tem raiva". A perda de audição, muitas vezes cercada de tabus estéticos ou teimosia por parte de idosos, isola o indivíduo e afeta diretamente as relações afetivas e profissionais.

Atualmente, o acesso ao implante coclear está assegurado tanto pelo Sistema Único de Saúde (SUS) — com atendimento regulado e centralizado em Cuiabá — quanto pelos convênios médicos particulares regulamentados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Com uma equipe multidisciplinar consolidada em Primavera do Leste, o tratamento que antes exigia longas viagens agora é realizado perto de casa, devolvendo a pacientes a dignidade de voltar a participar plenamente do mundo ao seu redor.

 

FONTE/CRÉDITOS: Podcast PVA Entrevista
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